Eu não faço vontades. Abro concessões baseadas na lei do merecimento.

Scarlet



sexta-feira, 30 de julho de 2010

BELO HORIZONTE

Pela primeira vez em toda a minha vida, eu olho para frente e não vejo um pano escuro.
Eu nem me lembro a última vez que, ou se vi algum dia, o horizonte. Nunca tive uma paisagem diante dos meus olhos, era como se eu não fosse existir para além do dia seguinte. Durante todos os anos de vida que tenho guardado na memória, eu acordei todas a manhãs e simplesmente fiz o que tinha para ser feito para depois dormir e fazê-lo novamente no dia seguinte. E assim, eu fui vivendo dia após dia como se eu não fosse existir no futuro.
Contraditoriamente a aquela sensação de futura inexistência, eu sonhei muitos sonhos. Me sonhei dentro das músicas que ouvi, dentro dos filmes que assisti, dos livros que li... Vivi em várias épocas da história, tive diversas profissões e nacionalidades. Vivi em muitos países e fui feliz em cada um daqueles mundos. Mas nenhum deles era o meu e as estórias também não eram a minha. Para escapar do breu que escondia o meu horizonte, vivi uma vida clandestina nas histórias reais ou fictícias da imaginação alheia.
Criei um mundo paralelo onde eu era feliz. Um mundo onde ninguém podia me alcançar, tocar ou ferir... Eu tinha o total domínio desse mundo. Era o meu mundo! Só meu! Mundo sem paredes ou portões trancados, onde eu podia circular livremente a colher informações, experimentar as mais diversas sensações e emoções... Aprender sobre a vida. Mas que vida? Com certeza não era sobre a minha. Pois eu tinha um dia após o outro que eram vividos em parte, em vidas que não eram a minha.
Eu experimentei e vivi intensamente a cegueira da escuridão e a solidão do silêncio. Vivi segura dentro de mim e totalmente desprotegida quando fora. Não me reconheci diante do espelho, não soube dimensionar a minha beleza, a minha inteligencia e nem a especialidade e a grandeza do ser que hoje, sei que sou. Tive bons empregos, ganhei muito dinheiro e nada fiz. Deixei de abraçar várias oportunidades por julgá-las além do meu merecimento. Vivi a inercia de um moribundo condenado a morte, que aceitava passivamente e humildemente migalhas que pudessem trazer algum conforto.
E assim encontrei dois ou três grandes amigos e passei por muitos supostamente amigos. Fui muitas vezes incompreendia – algumas vezes por não me fazer compreender, outras por falta de boa vontade de quem me via - não importa, o fato é que quase ou ninguém me conhecia.
E foi nesse inexpectante mundo de inércia que eu encontrei aquele que três anos antes eu havia instintivamente repudiado, e me casei.
Eu me casei, por encantamento e por ter pensado haver encontrado um amor. Encantamento que hoje ao olhar pra trás, consigo ver que se quebrou já na noite do casamento, quando fui trocada por um amigo, um cachimbo e algumas doses de uísque. Fui excluída da noite de comemoração do meu próprio casamento.
Hoje, sei que isso aconteceu porque de fato nunca me casei. O cartório, os papéis, as assinaturas não foram uma união de amor. Mas sim, um contrato onde eu mudei a vida dele, dando-lhe tudo o que ele não tinha: Casa, lar, filhos,prestígio, reconhecimento,importância... Um contrato predatório com o qual fui conscientemente usurpada, sem dele tirar qualquer proveito além das minhas filhas.
Como disse antes casei por encantamento, permaneci casada a princípio por acreditar ter feito a opção certa e depois por crer não haver outra opção. E ainda assim pensando, me separei sem optar... O fiz por imposição das circunstâncias.

Hoje percebi um tanto perplexa que me sinto livre. E a liberdade a qual me refiro, não está atrelada ao final de um casamento infeliz, é um sentimento muito mais amplo e libertador. Hoje, eu me vejo livre do pano pretoque me vendava o futuro. Olho no espelho e reconheço a minha imagem. E ao me reconhecer desperto para o fato de que foi sempre essa, e deveria ter sido, desde a noite do casamento a melhor... A opção.
E por incrível que pareça, mesmo vivendo o mais conturbado, difícil e desafiador momento de toda a minha vida. Eu me vejo pela primeira vez, no futuro... E bem.

Nara

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