Eu não faço vontades. Abro concessões baseadas na lei do merecimento.

Scarlet



segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Silêncio (Beethoven) - Texto de Pablo Neruda






Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”.

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela quis-me e por vezes também eu a queria.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la!
Está estrelada a noite e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com tê-la perdido.

Como para aproximá-la, o meu olhar procura-a.
Meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Porém, nós já não somos os mesmos desses dias.

Já não a amo, é certo, mas quanto a amei!
Minha voz buscava o vento para tocar os seus ouvidos.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A sua voz, o seu corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é certo, mas talvez ainda a ame.
É tão breve o amor e tão longo o olvido.

Porque em noites como esta tive-a nos meus braços,
Minha alma não se conforma com tê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
E estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

      Pablo Neruda
                    O MAR DOS MEUS OLHOS







"Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor
Mas pela vastidão da alma
E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos
Ficam para além do tempo
Como se a maré nunca as levasse
Da praia onde foram felizes



Há mulheres que trazem o mar nos olhos

pela grandeza da imensidão da alma
pelo infinito modo como abarcam as coisas e os homens...
Há mulheres que são maré em noites de tardes...
e calma."

Sophia de Mello Breyner Andresen


Há tempos que sou uma viajante das entrelinhas, acho até que sempre fui. Não faz muitos dias, escrevi em algum lugar que, o óbvio contraditoriamente à palavra, não pode ser visto a olho nu.
A sensibilidade no olhar está para a percepção da verdade, assim como o microscópio para visualização de micro organismos.

Feliz ou infelizmente o mar que trago nos meus olhos, sempre deram a mim tal habilidade. Porém, contrapondo-se ao meu olhar, a boa fé do meu coração de menina muitas vezes recusou-se a aceitar o que via o meu olhar. Infringindo a si mesmo dores desnecessárias.
Hoje, esse coração conserva a sua essência. Porém, compreendeu que habita um peito de mulher com o mar em seu olhar. E procura respeitá-lo, para que não se deixe novamente enganar.

            Nara