Eu não faço vontades. Abro concessões baseadas na lei do merecimento.

Scarlet



quinta-feira, 17 de junho de 2010

EM BOCA FECHADA NÃO ENTRA MOSCA

Minha família é muito animada e eu guardo na memória a lembrança de várias reuniões de família que mais pareciam grandes festas.
Quando eu era pequenina, a família costumava se reunir na casa de uma tia que morava perto lá de casa. As festas eram sempre bem animadas, eu me divertia muito. Normalmente eu ia com a mamãe porque meu pai viajava muito a serviço, na verdade viajava o tempo todo ele era marítimo. As festas eram quase sempre igual muita comida, refrigerantes e a famosa cervejinha para os adultos. E como não podia deixar de ser, havia muita brincadeira... Enfim, eram reuniões iguais as que aconteciam em qualquer família. Mas algumas ficaram marcadas em mim, como essa que vou contar agora.
Pelo que eu me lembro eu era ainda bem nova, acho que tinha entre sete ou nove anos no máximo. Então, numa certa noite a família se reuniu na casa da minha tia. para comemorar sei lá o que. Tudo corria normalmente: adultos falando alto e brincando um com os outros. As mulheres fazendo e servindo salgadinhos, conversando sobre a vida. E nós as crianças, corríamos pela casa e pelo quintal numa algazarra só.
Eu como sempre estava muito animada e brincava pra valer. Em todas as festas eu brincava o máximo que eu podia, porque meu irmão era quase dez anos mais velho do que eu, e obviamente não tinha saco pra brincar comigo. Então, na maior parte do tempo ficávamos eu e minha mãe em casa, e como não poderia deixar de ser, eu brincava sozinha. Então eu aproveitava mesmo! Brincava de me acabar.
Naquela noite entre outras brincadeiras, eu e os meus primos que lá estavam, resolvemos brincar de pique esconde. e eu por ter a malicia de quem brinca sempre só, logo fui pega e o pique ficou comigo e agora, para o meu azar, eu teria que achar todo mundo.
Todos se esconderam muito bem, e eu já estava ficando cansada de procurar quando tive a idéia de procurar na varanda. As luzes da frente da casa não estavam todas acesas, então, seria poderia ser lá o esconderijo. E pensando assim La fui eu!
Logo que cheguei ao quintal em frente à casa, pude ouvir um barulho oco seguido de um som que parecia um grito contido. Eu imaginei que poderia ser algum dos meus primos que desastradamente tivesse feito o tal barulho que denunciou o seu esconderijo. Então, pé ante pé dirigi-me rumo ao ruído para que pudesse pegar a minha presa de surpresa, e assim passar o pique para outro.
Para meu espanto, quando cheguei na varanda a cena que vi me deixou estarrecida. Não se tratava de nenhuma criança de escondendo, mas sim, de um casal que havia casado há pouco tempo. Ela era filha de dois grandes amigos de meu pai e de toda nossa família, na verdade, eram considerados como se da família fossem.
O rapaz forçava a esposa contra a parede, mas não para dar beijos como seria de se esperar num casal tão jovem. Mas para golpear a moça com socos e tapas no rosto, ao mesmo tempo em que a impedia de gritar. Eu fiquei estarrecida! E logo após o susto inicial, meu primeiro reflexo foi correr para os fundos e contar a todos o que estava acontecendo. Pronto! A confusão estava lançada.
Como se não bastasse o susto que levei ao presenciar aquela agressão, para meu espanto maior todos se voltaram contra mim. Depois de brigarem entre eles, pois os pais da moça estavam na festa, os adultos ali presentes me acusaram de semear discórdia. Eu sem nada entender enfrentei olhares rancorosos, alguns dissimulados e outros diretos e ofensivos. Por onde eu passava escutava alguém dizer por entre os dentes:
-Que menina fofoqueira!
E em pouco tempo todas as atenções se voltaram para mim, o comportamento do casal foi aparentemente esquecido e eu me tornei a principal responsável por todo aquele rebuliço.
Eu não sei se porque concordava com todos, se por pressão da família ou por ver a educação que havia dado a mim.Minha mãe como todos ali, ficou indignada e o pior estava por vir. Todos os que tiveram oportunidade me repreenderam, eu me sentia só e acuada. Pela primeira vez eu olhei para os adultos e só vi gigantes na minha frente. Eu estava muito confusa, não sabia definir se sentia verginha ou medo, acho que senti os dois. Eu não entendia nada, porque eu aprendi que não se deve bater nos outros e que não se briga em público... Papai nunca bateu na mamãe! Então porque todos estavam com raiva de mim?
Foi em meio a essa confusão que eu vi minha mãe se aproximar de mim carrancuda, seus olhos pareciam que iam soltar faíscas. Ela chegou bem perto e me olhando nos olhos disse por entre os dentes:
-Vamos embora, quando chegarmos em casa, nós vamos ter uma conversa séria!
Eu gelei de pavor! Nem força pra chorar eu tive. Mamãe nunca tinha falado assim comigo. Eu me senti a pior das pessoas e me encolhi como se quisesse me esconder dentro de mim, porque todo do lado de fora me causava medo.
Então, mamãe me pegou com firmeza pelo braço e fomos em direção a porta de saída. Se me despedi ou não, eu não me lembro. Era como se o mundo tivesse parado naquele momento, o silencio que eu ouvia era maior do que a casa, do que as ruas... O silêncio era dentro de mim.
E foi assim em silencio que caminhamos, eu e mamãe, até a nossa casa. Nós morávamos perto dali, mas a caminhada pareceu durar horas! Eu respirava com cuidado pra não fazer barulho, quem sabe mamãe não ouvia e esquecia que eu estava ali? quando chegamos em casa, mamãe abriu aporta da sala ainda em silencio, nós entramos e eu fiquei ali em pé quietinha sem saber o que me aconteceria. Mamãe sem dizer uma palavra foi para a cozinha. Eu sozinha no meu silêncio, ouvi uma gaveta abrir, o barulho dos talheres, depois o barulho da porta da geladeira... Tudo parecia em câmera lenta, como se fosse outra dimensão. De repente o silencio foi quebrado com a voz da mamãe me chamando:
-Nara vem aqui!
Eu gelei pela segunda vez. Minhas pernas travaram, tremiam... Eu não conseguia dar passos largos, era como se eu estivesse me arrastando até a cozinha. Quando lá cheguei, mamãe estava parada com uma colher e um vidro na mão, eu reconheci aquele vidro. Mamãe costumava preparar o próprio molho de pimentas, com alho, vinagre, azeite, cebolas e grandes pimentas malaguetas e deixava "curtir no vidro", como ela costumava dizer.
Bem, mamãe encheu uma boa colherada com aquele molho e me disse:
- Abre a boca! Você vai engolir essa pimenta pra aprender a nunca mais ver alguma coisa e sair falando. Nem tudo o que agente vê, agente fala!
Eu engoli a pimenta...
Mas acho que a humilhação foi maior que a queimação, porque eu não me lembro se, ou o quanto ardeu.
Eu nunca mais falei nada do que vi, creio que aprendi a lição. Mas a mulher que apanhou do marido, continuou a falar pra todos sempre que podia que eu era fofoqueira. Por várias vezes na minha frente ela alertou as pessoas para tomarem cuidado comigo. E me caluniou ao me acusar de ter contado para sua irmã mais nova que ela era adotada. E eu sequer sabia que ela era adotada!
Por conta disso os pais dela se mudaram do bairro... Eu aprendi a minha lição, e eles?
                                                                                                                         
                                                                                                                          Nara

Nenhum comentário:

Postar um comentário