Eu não faço vontades. Abro concessões baseadas na lei do merecimento.

Scarlet



sábado, 1 de novembro de 2014

                                                          DESAPARECIDO

Eu era muito pequena mas ainda me lembro dos dias que vierem logo após recebermos a notícia de que o navio que meu pai estava embarcado, Horta Barbosa, havia colidido com outro navio no Golfo Pérsico.
Foram dias sombrios. Era como se vivêssemos no limbo. Os dias passavam pesados, quase sem som. Só havia um sentimento calado que rondava pela casa e em nossos corações. O mas estranho, é que não se falava sobre isso, evitávamos. Era como se falar nesses sentimentos tivesse o poder de transforma-los em realidade.
Levávamos os nossos dias tentando enganar a realidade, como se nada estivesse acontecendo.
Lidar com a morte, é infinitamente mais fácil do que lidar com o desaparecimento de alguém que se ama.
Nessa situação só temos duas alternativas: Sucumbir a tristeza e ao desalento, morrendo em vida. Ou nos apegarmos a fé, a esperança, buscar alento e assim não morrendo por inteiro. Porque, quando alguém que se ama desaparece, algo em nós desaparece com essa pessoa. Por consequência, morre.
Alento, é tudo o que pode conseguir alguém que tem um ente desaparecido. Pois o fantasma do desaparecimento fica sempre ali, no canto da nossa memória. Que com o passar do tempo, se torna o cantinho mais escuro.
E para sobrevivermos, de certa forma vivemos na utopia de suposições mais amenas, que nos acalentam a alma e fim...
Graças a deus, meu pai voltou para casa à salvo  e nossa utopia teve um final feliz.
Mas, infelizmente nem todos aqueles que desaparecem voltam. Uns porque estão mortos, uns porque são impedidos de voltar e ainda há, os  que não voltam por vontade própria.
Nada mais cruel do que ser impedido de dizer adeus a quem se ama! Sinto uma dó solidária de quem sobrevive assim.
Sem fim...
                                                                                         

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